Sete Oito *

-Teu marido ta aonde? -Ta ali, ó. 
-No cemitério? -É.  Ficamos ambas em silêncio. O vento quente e úmido continuava soprando nas janelas e, aquela cortininha feita de um resto e saia velha já nem mais disfarçava o calor que entrava quarto adentro. Ficamos ali. Quietas. Fumando um cigarro sujo ate que os lábios queimassem de leve no final da bituca. Depois de uma media pausa, perguntei. - Como foi? -Com o ferro de passar roupa. Olhei para aqueles dedos amarelados e enrugados e fiquei tentando imaginar aqueles bracinhos magros fazendo. Mas fez, né.  Senão ela não estaria aqui e ele la. Enterrado. 

Ela jogou fora a bituca e ficou cavocando na parede com um pedaço de lata. Não tinha mais nem um traco do que, algum dia, pudesse ter sido uma beleza de juventude. Se é que foi alguma vez bonita. -Ele batia em nós.  Por tudo. Antes era só quando bebia. Depois sem beber. Coitado. Não parava nos trabaio. Eu lavava e passava p tentar pôr comida na mesa. Um dia, cansei. Ele bateu na fia e deitou em riba dela. Ela não gritou, só gemeu doído e sangrou. Quando ele saiu ela ficou lá, quietinha, sem respirar. As otra já tinha ido embora pro causa dele. Só tinha ficado a piquena. Eu chamava ela assim. Piquena porque não tinha crescido muito. Tinha 12 ano e corpinho de 7. Magrinha . Usava fralda ainda. Me pretiou tudo. Acordei com o ferro na mão e ele ali, caído numa poca de sangue. Peguei a pequena no colo e levei pra madrinha dela. 
A tarde se ia e o sol já não sombreava a parede, projetando as barras da janela na parede descascada. Senti um gosto ruim, na boca. De sangue, mas acho que era fome mesmo.  Depois de tanto tempo ali, já estava acostumando.  Coloquei a ponta dos dedos no pescoço e senti os caroços da cicatriz. Aquele desgraçado quase tinha conseguido me estrangular. Ainda bem que eu tava com a tesoura na mão, senão era ele que estaria ali e não eu. Puxei mais um cigarro e estendi pra ela também. Acendemos e ficamos ali. Fumando quietas, sentindo um vazio que só muie assim sente.
Entenda o que é Feminicídio

* Sete Oito é alusivo à data que passou a vigorar a Lei Maria da Penha no Brasil. 07/08/2006

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