Quem cuspiu no meu café?

Há alguns segredos que devem permanecer no silêncio. Há outros, que devem ser escancarados assim que possível. E outros ainda que há um tempo certo para ser contados, de preferência quando não conseguirão prejudicar mais o autor. Na real, segredo bom já nasce morto, e se extingue com a morte do autor ou qualquer outra situação que o faça desaparecer. Segredos deixam de existir quando são compartilhados, contados, mostrados.
Há alguns anos, trabalhava em um hotel na região metropolitana, hotel recente e novo, de uma rede que, mais tarde viria a se transformar numa das maiores redes hotelerias do país. Mas como a estrutura era nova e, a rede ainda não existia, tudo era começo, experiência. Havia naquela equipe uma gana e uma garra, que agiam como se cada centavo que entrasse fosse direto para o seu próprio bolso. E eu, não era diferente. Poucos meses após entrar na empresa e após alguns gerentes terem passado provisoriamente, assumiu a gerencia um ex-colega de faculdade, numa experiencia quase suicida da empresa. Falo suicida, pois, como já o conhecia da faculdade, o mesmo era famoso por seus rompantes de agressividade quando algo não era feito conforme sua vontade e por tratar todos com desdem, que tivessem cargos inferiores ao seu, o que no caso daquela equipe, se resumia a 99% do staff. Ainda era a primeira tentativa do rapaz num cargo de gerencia, o que acabou se tornando uma catástrofe muito pior ainda, mas isso já é tema para outra história.
Na época, todo serviço de alimentação era terceirizado e haviam vários problemas operacionais acontecendo. A direção do hotel resolveu então assumir o setor de Alimentos e Bebidas e fui convidado para gerencia-lo, o que seria minha primeira experiencia como gestor de uma equipe também. Haveria um período de transição de 30 dias, entre a saída da empresa terceirizada até que eu assumisse, porém fui me inserindo no contexto para já ir acompanhando a transição mais de perto, ciente que teríamos vários problemas pela frente. Certo dia, após o almoço, solicitei ao garçom (da terceirizada) um café espresso. Estávamos sozinho no bar/cafeteria. O garçom me olhou e disse: "Vou lhe contar um segredo...Gosto muito do Sr., por isso não cuspirei no seu café!" Ao meu olhar de espanto e, ao mesmo tempo curiosidade, o mesmo continuou no mesmo tom impassível, como se contasse uma estoria de contos de fadas ou como se narrasse uma partida de futebol que havia jogado no último domingo com os amigos. "Todo dia, apos o almoço, o gerente me liga da sala dele e pede um espresso. Geralmente ele grita ou xinga quem o atendeu e, sempre, reclama da demora e nos chama de incompetentes Então, sempre que ele pede um café, cuspimos e misturamos á espuma do mesmo. Às vezes, ele pede sorvete de creme e, fazemos o mesmo processo."
É lógico, caro leitor que achei um absurdo, mas, lá no meu intimo entendi a atitude deste pobre garçom.
Mas, contudo, aprendi uma grande lição, que independente de quem for, nunca devemos tratar ninguém mal, pois nunca sabemos o dia de amanhã e , principalmente, se não vão cuspir no meu café.

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