Conto: Laranjas
Almerindo tinha acabado de sair de casa e já estava a meio caminho de volta. Sempre esquecia algo e tinha que voltar. Mas não ligava. Desta vez havia esquecido de uns papéis que o patrão havia pedido uns dias antes. Não entendia porque ele precisava dos documentos de novo, visto que o RH da empresa tinha cópia de todos. Mas ele não era dado a perguntar. No trabalho as pessoas pediam e ele fazia. Somente. Achava que era assim que deveria ser. Às vezes vinha a D.Rachel. Não gostava dela, mas ninguém sabia disso. Ela gostava de ficar perguntando coisas que ele não queria responder. Mas respondia mesmo assim, pois aprendera que era feio não responder. Ela era uma cinquentona de cabelo alaranjado que ele achava feio e tinha mania de falar pelos cotovelos e cuspir quando falava. Devia ser por causa daqueles dentes separados na frente que ela tinha. Se ele podia, fugia dela.
Bom, chegou de volta em casa e a esposa já estava lavando a louça do café da manhã. Os filhos já haviam ido pra escola. Entrou pela porta dos fundos, deixando a bicicleta encostada no portão, pegou a pastinha verde de plástico com os documentos dentro e retomou seu caminho. Tinha bastante tempo ainda, pois gostava de chegar cedo na firma. Gostava de engraxar seus sapatos, ver se o uniforme estava limpo e bem passado. Para ele, este ritual era muito importante. Um dia teve um treinamento. O Rh falou que o uniforme é o cartão de visitas da gente. Que era a primeira impressão que as pessoas tinham da gente. Gostou disso. Não sabia direito o que era um cartão de visitas, mas gostava de estar com uma boa aparência no trabalho.
Chegou ao trabalho, colocou seu uniforme e fui sentar na área dos funcionários. Sempre ficava um tempinho ali, quieto, só observando o vai-e-vem de seus colegas, fumando, tagarelando, fofocando. Ele não gostava de nada disso, apenas ficava ali, quieto, observando, numa sonolência de quase morte.
No horário marcado, subiu, bateu ponto e entrou pra trabalhar. Sua chefe, a dona Dulce, uma senhora magra e elegante, apesar de seus já passados sessenta anos, lhe chamou e disse que o patrão perguntou dos documentos. Ele desceu até o armário, pegou a pastinha e levou ao patrão. Nunca tinha falado com o patrão, não tinha coragem nem de olhar para ele. O Sr. Geraldo, um homem gordo que usava sempre ternos caros e muito apertados pro tamanho da barriga, achava que ele não conseguia nunca encontrar nada que lhe servisse e acabava comprando qualquer um mesmo. Quem havia lhe pedido os documentos era a secretária, Dona Mirineide, uma moça lourinha com dotes físicos que justificavam o emprego que ela tinha, dada a sua pouca inteligência. Deixou os documentos com ela que apenas gruniu e voltou ao trabalho.
Pela tarde foi chamado novamente, desta vez para assinar um monte de papéis. Dona Mirineide disse que precisava assinar rápido, pois o patrão estava esperando. Sem ler, ressaltou, não precisa. mesmo que precisasse, ele ia levar pelo menos uma semana para ler tudo aquilo, pensou. Só pra assinar foram mais de 50 minutos. "É só, pode ir", sibilou a D. Mirineide, mascando um chiclete enquanto olhava umas fotos suas no computador. Seus filhos tinham aquele programa, que chamavam de feicibuqui-sei-lá-o-que, não entendia muito daquilo tudo mesmo. Pensou que queria era voltar logo pra limpeza, que era o que sentia-se bem fazendo. Um dia a D. Dulce havia lhe dito numa tal "avaliação" que ele gostava do que fazia. Ele não gostava, nem desgostava, tinha aprendido que pobre não pode se dar ao luxo de gostar de trabalho. Tem que trabalhar e pronto. E fazer bem feito senão perde o emprego. Só isso. O que ele gostava mesmo era de pinga. Antes de chegar em casa tomava um "martelinho" no Careca. Quando recebia o salário, sacava tudo de uma vez, passava no careca e deixava 20 pilas. Chegando em casa, dava todo ordenado pra esposa, que ia pagar as contas e guardar pra comida do mês.
Naquele dia, especialmente ele apeou da bicicleta e foi caminhando om a "magrela" do lado, que era como ele chamava a bicicleta que ele havia comprado o de segunda mão do Salsicha, o vizinha da rua de baixo que vivia sentado numa cadeira com almofada na porta de casa, dado as crises de hemorroidas que tinha e, por causa dela não podia mais andar na bicicleta. Ainda gastou uns 10 pila para uma correia nova e graxa.
Foi descendo a ladeira do trabalho, em direção ao buteco tradicional, bebeu sua pinga e deixou os 20 pilas, para cobrir as outras pingas que iria tomar ao longo do mês. O dia estava estranho, havia parado a chuva e um alaranjado com nuvens cobria o final da tarde meio abafado, meio úmido. A medida que chegava em casa, o cheiro de esgoto a céu aberto foi invadindo as narinas dele, a ponto de quase lhe darem náuseas. Em dias de chuva, o cheiro de esgoto na vila se acentuava.
Entrou em casa, que pela hora ainda estava vazia e escura. A esposa ainda não havia voltado das faxinas e os filhos deveriam estar em algum vizinho. Gostava particularmente deste momento. Sozinho em casa, conseguia curtir o silêncio e a solidão com prazer, tão raros desde que se casara aos 19 anos, mais pela insistência da esposa, que na época queria sair logo da casa da mãe, dizendo que o padastro "era safado e bulia com ela". Este momento sozinho, ele sentava num canto da cozinha e ficava ali, quieto, descascando uma laranja com calma ou olhando pros vãos do assoalho, onde as vezes algum inseto escapava ou entrava. às vezes aparecia algum camundongo, desde que o Zaroio, um gato amarelo vesgo havia comido um rato envenenado e morreu no forro da casa e foi um tendeu ter que tirar as telhas pra pegar o gato já meio apodrecido, visto que demoraram para sentir o cheiro.
Descascou sua laranja com calma, olhou as unhas já amareladas do serviço e do tempo, ficou pensando em como é bom o silêncio. A filha adolescente disse que enlouquecia com o silencio da casa quando chegava e já colocava a musica num tom tao alto, que algumas vezes ele pensou em levar a menina num doutor pra ver se ela não sofria de algum tipo de surdez. A sogra havia dito que "encosto" de coisa ruim, pela letra das músicas que ela escutava. Almerindo achava que "encosto" era a sogra, visto que a desgraça só fazia reclamar da vida, dele, dos vizinhos, dos filhos e até do finado marido, visto que acabavam as pessoas para reclamar e ela puxava o rosário dos defuntos. Se algum dia algum defunto resolvesse reivindicar alguma coisa nessa vida, seria o falatória da sogra. O filho era igual a ele. Menino bom. Bom filho, bom aluno, não se envolvia com tóxico, nem com os vizinhos da mesma idade, que, naquela vila ou estavam fumando o cigarrinho do capeta, ou estavam roubando algum carro. O menino ai na escola de noite, de dia ajudava como pedreiro o tio que era mestre de obras. Namorava uma menina gorducha, filha do vizinho das hemorroidas que havia lhe vendido a bicicleta. De noite a mulher lhe chamou pra ver o patrão no noticiário, não entendeu muito o que falavam, sobre caixa dois, sobra de campanha, não entendia destas coisas de política e nem queria. Alias, nem sabia que o patrão era envolvido em política. Apenas notou que, na televisão, os ternos pareciam ainda mais apertados no patrão.
Dormiu um sono profundo, sem sonhos, como era costume todo dia.
No dia seguinte, após o costumeiro café, saiu mais cedo que o costume, visto que estava chovendo e não poderia ir de bicicleta, teria que enfrentar o ônibus até o trabalho e demoraria mais. Não entendia porque em dia de chuva o transito ficava tão bagunçado e, as pessoas tão nervosas. Ele não lembra ter ficado nervoso, nem quando casou, nem quando nasceram os filhos. A única vez que ficou nervoso foi quando subiu no telhado pra tirar o gato morto. Não gostava de altura, isto sim lhe dava nos nervos.
Chegou ao trabalho, estava tirando o uniforme do armário de lata quando chegou D. Dulce e D.Rachel. A chefe parecia ter chorado a noite toda, ou fumado aqueles cigarros que a gurizada do bairro fumava, tal era o vermelhão nos olhos. D. Rachel estava com uma cara estranha, quase que de prazer, coisa que ele não acreditava que aquela mulher um dia sentira por conta própria. D. Rachel falou e, cuspia quando falava, que era pra ele subir direto para sua sala, pois uns homens queria lhe falar. Subiu escoltado pelas duas e, ao chegar ao RH, o patrão estava com uma cara nervosa, olhos arregalados e uns homens vestidos de terno e cara de zangados mandaram ele entrar e sentar.Falaram que eram da polícia Federal. Falaram alguma coisa de laranja, caixa dois, mesmo papo que ele havia escutando na tv no dia anterior e não havia entendido bulhufas. D. Dulce se desatava chorar, D. Rachel estava com os mesmos olhos que ele vira uma vez sem querer num canal pornô que pegara o filho assistindo na madrugada. O patrão somente esfregava uma mão na outra e as vezes bufava.
Algemaram ele, o patrão falou que ficaria tudo bem, que eles ajudariam os filhos, a esposa. Tinha indenização da firma se ele "colaborasse" com a polícia. Ele podia colaborar limpando a delegacia, se fosse o caso, mas como era acostumado a não retrucar, ficou calado.
Colocaram ele numa cela no fundo da delegacia, sozinho e no escuro. Disseram que ele tinha direito a um advogado e à uma ligação.


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