Série Lendas Urbanas: O Boto do Rio Jaguari


No cancioneiro amazônico, a Lenda do Boto é uma das histórias mais belas e com a crença mais forte dentre todas.  Ela está ligada aos ribeirinhos, às festas juninas, aos bailes caseiros e populares, quando então, todos se encontram para as festividades e as moças colocam seus trajes mais bonitos, se enfeitam e aproveitam para namorar enquanto seus pais conversam distraídos e alheios a tudo. Nessas noites, geralmente de luar, o Boto aparece em forma de um homem alto, bonito, com um chapelão na cabeça e todo vestido de branco. Gentil e cavalheiro, todas as moças ficam encantadas e se deixam levar por sua beleza. E ele então, escolhe a mais bonita e a leva para a praia ou a beira do rio. E ali, tece e acontece, e o amor vinga de uma maneira, simples e direta, mas cheia de encanto e magia. Só que depois, some e nunca mais é visto pelas redondezas, e a garota carrega no ventre o fruto de uma noite de encantamento sem no entanto mostrar-se arrependida do ato consumado. Dizem que geralmente nasce um menino, o filho do Boto.

Pois bem, nossa história se passa bem longe do Amazonas, porém tem todo encanto e misticismo que a lenda impõe. Esta história é verídica e há testemunhas ainda vivas, apesar do tempo corrido. Esta história aconteceu num verão às margens do Rio Jaguari, que banha a cidade do mesmo nome, no interior gaúcho. A narrativa se passa na terceira pessoa a fim de manter a privacidade  dos envolvidos.

O Boto de Jaguari

Estavam todos afoitos, organizando as mochilas, verificando o empréstimo das barracas, o estado dos carros que os levaria ao acampamento, as roupas e o dinheiro.  Os mantimentos não passavam de muito macarrão, arroz, umas latas de sardinha e de salsichas. Com certeza haveria comida suficiente para uma semana. Havia ainda a preocupação da grana a ser levada, visto que na época não era usual os locais aceitarem débito e nem cartão de crédito. Quase tudo era feito com dinheiro vivo. Ainda mais em um camping à beira do Rio Jaguari. 
No dia marcado, saíram rumo à Jaguari, e, ao chegar, foi escolhido  o terreno onde colocariam  a barraca e quem iria dividir o quarto com quem, aos pares. Haviam outras barracas de amigos próximos e uma família que tinha uma filha e as amigas das filhas.
Foi uma semana cheia. Cheia de trago, farra, risos, alimentadas à base de macarrão com sardinha, arroz com salsicha, mudando nos dias seguintes para arroz com sardinha e macarrão com salsicha. Eram felizes na sua ignorância juvenil, numa recém tentativa de saída da adolescência para a idade adulta. Estavam todos naquele "Limbo" em que já passaram da idade de serem adolescentes, porém não há maturidade ainda para serem considerados adultos. Era época do trago e da farra. 
O personagem da história não estava feliz. Naquele época era dificil ele estar feliz. Adorava sofrer, se magoar, se emburrar. Adorava passar as noites de chuva sentado sozinho olhando a chuva e escutando a trilha sonora de Blade Runner. Quando não havia o porque sofrer, chorava e sofria por não ter motivos pelo que chorar, afinal, a vida era assim, meio ingrata e o sofrimento era tão bom. Amores platônicos surgiam aos milhares. Quase nunca eram correspondidos. E quando eram, não davam certo.
Ele estava triste esta semana de acampamento em particular porque havia deixado uma namoradinha em algum lugar distante. Ela não era importante, o importante era sofrer pela distância dela.
Os amigos se preocupavam com ele, às vezes. Às vezes enjoavam e o mandavam à merda. Mas aí ele se magoava, se fechava e era um saco. Mas eram bons amigos, afinal, ele cozinhava muito bem ( o macarrão com sardinha, com salsicha). 
Na última noite antes do retorno, todos haviam ido à cidade, visto um festival de música que acontecia e o "murrinha" tinha ficado sozinho, sofrendo. 
Acabou puxando conversa com a menina da barraca ao lado. Os pais da amiga haviam ido para a cidade e elas estavam sozinhas. Durante a semana já havia tido troca de olhares, mas nada demais. Porém aquela noite, ambos sozinhos, à beira do rio Jaguari, a carência acabou juntando os dois. Começou num bate-papo bobo, como sempre é nessa idade e logo rolou um beijo. Dois beijos. "Vamos pra barraca???"
Ele a levou à barraca com pouco jeito e muita rapidez, antes que ela pensasse melhor e desistisse da idéia. Afinal, ele não era nenhum brédipiti. E ela estava longe de ser uma angelinajulí, porém nessa idade todo homem é um avestruz, come o que aparece, então, não fazia diferença.
No fervor do momento, na hora exata e perfeita, ela como boa menina do interior, séria e recatada, o afasta delicadamente de seus peitos, tentando de uma maneira pudica dizer que não quer ainda, que é cedo, que é melhor eles se conhecerem melhor.
Ele, não querendo perder a foda, promete o mundo e o céu, que vai vir muito à cidade com os amigos, que não mora tão longe assim, bla, bla bla...e a menina, vislumbrando um futuro namoro, acaba fazendo seus planos e se entregando ao ser vil que lhe tentava. Falou que no dia seguinte ia pra casa cedo, mas que de noite poderia apresentar seus pais, faria um jantarzinho em que ela mesma cozinharia enquanto ele ficasse conversando com seus pais, que, com certeza, iriam adorá-lo.
Na manhã seguinte, cedo, a mãe de um dos amigos veio buscá-los. Em menos de uma hora eles arrumaram as coisas, desmontaram a barraca e voltaram para sua cidade, para retomar suas vidas.
Bom, o resto da historia deixo correr a minha fértil imaginação:

Dia seguinte a moça chega para contar ao rapaz que sua família aceitou que ele fosse jantar lá, meio receosos, mas tranqüilos que a filha até que enfim estaria trazendo um namorado em casa. Melhor assim do que ficar de "agarramento" no banco da praça em frente á Igreja, onde as pessoas ficariam comentando...

Nada. O terreno vazio. Nem sinal que algum dia havia uma barraca ou alguém. Apenas as folhas caídas dos eucaliptos, voando com o pouco vento quente que vinha do rio. De repente toda noite passou pela sua cabeça. Os beijos, o contato da pele...tudo...será que havia sido um sonho? Será que havia acontecido mesmo? Procurou os amigos, que disseram não conhecer ninguém assim, com este nome nem com esta descrição. Pediram que contasse a história. Foi o boto. Só pode. Não é só na Amazônia. Qualquer rio tem o boto, que sai das águas nas noites e seduz meninas ingênuas.
Foi assim que surgiu a lenda do boto. o Boto de Jaguari.




Comentários

Luís Augusto disse…
Mas é FdP esse boto, pois não?
Se encontrasse com ele hoje, acho que dava uma sova para ele aprender.
Pior é que os amigos também foram sacanas...

P.S.: adorei as ilustrações, se é que tu me entende...
Nikelen Witter disse…
Hahahahaha, vou cantar: ele é boto, mas é meu amigo!
Beijo!!

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